domingo, 3 de junho de 2012

Andar de bicicleta


Quando se faz o que se ama - aquilo que preenche e realiza - vão-se descobrindo outras necessidades por colmatar, por satisfazer, por acalmar; outras inquietações que precisam de um Xanax para não se tornarem barulhentas.
A minha, é escrever sobre cidades.
(O problema é que não saio do mesmo sitio, senão isto seria um blog sobre viagens, e não sobre queixumes, sapatos e dicas muito pouco úteis sobre nutrição).
É que eu apaixono-me por cidades. E é tão fácil perder-me de amores por elas quanto aprender a andar de bicicleta - e não, não escrevo isto com conhecimento de causa, mas isso fica para outra história. Gosto dos solavancos do início, do medo, da insegurança. Até gosto das quedas ocasionais, de esfolar os joelhos e ficar com as mãos a arder, de fazer festinhas no asfalto. E gosto de começar a planar. De conhecer os buracos e contorná-los, de conhecer os planaltos e abraçá-los. De saltar nas lombas e descer as avenidas, de sentir o vento e ver a paisagem à velocidade da luz. É por isso que poderia escrever sem fim sobre os telhados de Paris, a energia pulsante de Barcelona, a tristeza de Luanda, da incongruência do Mussulo e da decadência gostosa de Lisboa.

Talvez o faça.

domingo, 27 de maio de 2012

A bailarina





Quando a vi, pensei que era um afia.
Depois, pensei que tivesse qualquer coisa dentro, por isso abanei-a.
Depois, em tom de explicação, ele rodou a manivela e disse "É uma caixa de música". Ah! É que eu nunca tinha visto nenhuma. Só em filmes. E pensei que fossem austeras e antigas, e não um pedaço de cartão frágil, quase descartável. Mas a música encantou-me, eu soube que tinha de ser minha, e ela ofereceu-ma (claro).
Acho que, só quando aterrei em casa, desempacotei tudo e voltei à crua realidade, é que a ouvi com atenção - com aquele desejo de que os acordes me levassem de volta a Barcelona. Mas não. Não fosse ter aquele "Gaudi" escrito de lado, qual mina de turistas, eu não diria que a tinha trazido da cidade vibrante, mas antes de uma cave antiga, melancólica, e profundamente triste. É isso - triste. A música parte o coração, semeia lágrimas e colhe corações partidos. Conta a história de uma bailarina condenada às voltas repetitivas da caixa de joias daquela senhora de cara enrugada, que se adorna em pérolas e casacos de pele, que risca assertivamente os olhos com lápis negro e esborrata os lábios com o vermelho de outro século. Que se mascara, todos os dias, de um tempo que já foi, para se sentar na poltrona e afogar os sorrisos das memórias no alcool mais bafiento da dispensa vazia.

E, não sei porquê, não consigo deixar de dar à manivela. E a bailarina não pára de dançar.

domingo, 13 de maio de 2012

No Reservations


É quase um crime como não consigo transferir para as palavras o quanto estou embevecida pelo episódio do No Reservations sobre Lisboa.
Mas como é com palavras que ganho a vida, cá estou eu a tentar.
O meu amor por Lisboa roça o absurdamente inexplicável, quase como aquelas paixões doentes cujas feridas físicas e emocionais - sim, estou de ti, calçada, e de todos os pares de sapatos que já molestaste - não conseguem ver um fim no horizonte. E, hoje, cresceu.
Porque a frontalidade quase cruel de Bordain não lhe permitiria embelezar uma cidade que já não tivesse "bela" inscrita no DNA, e, por mais que tenham mostrado um povo profundamente idoso e melancólico (bom... é isso que somos), voltei a apaixonar-me por Lisboa.
Fiquei com vontade de me embebedar com ginginha e subir o Chiado aos zigue-zagues, comer uma bifana cheia de gordura e ouvir fado embriagado pela dor de um tempo que não chegámos a viver. Fiquei com saudades de ouvir a voz desconcertante da Carminho e sentir a alma lisboeta pulsar em cada nota da guitarra triste, de me deitar na relva dos jardins de Belém ou de ver os barcos partir e chegar, sem fazer absolutamente nada da vida que não fosse sorrir.

E tenho pena que não tenham mostrado o movimento dos nossos museus ou o Bairro à noite, a gente gira do Príncipe Real ou uma ou outra pessoa jovem. Aqui e ali, somos novos e giros, e Lisboa também é nossa.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Te quiero, Barcelona






Começo a achar que fiz duas viagens numa só.
Na primeira, apaixonei-me por Barcelona. Pelo Born e pelo Barri Gótic, pelas pessoas com pinta a passear os cães, pelas Vespas e bicicletas, pelo coolness palpável, pela beleza, pelo sotaque, pelo cheiro, pelas varandas com roupa, pelas alpercatas, pela paella e pela sangria que nem consigo beber, pelo sol de primavera, pelo fervilhar de uma cidade que respira pureza. E eu quero fazer parte dela.

E na segunda, adjeta, paralela, consequente e impulsionante, pela companhia. Pelas madrugadas com conversas de tudo e de nada, pelos risos intermináveis e sorrisos íntimos, pela confiança desmesurada numa amizade que se provou ser para ficar. E também pelos arrufos e perdões, pelas perdas e recuperações, pelos abraços e momentos que ficam mais marcados que a tal tatuagem que não cheguei a fazer.