Não me consigo decidir se lhe chamo intocada pelos anos, ou se esta reticência em aceitar a evolução é apenas uma forma de a ligar às memórias de infância.
É que Coruche continua deitada à beira do Sorraia, continua preguiçosamente guardada pelas sete pontes, continua com o bacalhau à Farnel, continua com o doce da casa, continua com o jardim, continua com o Coreto onde me sentava para tirar fotos, com os sapatinhos de verniz, as duas trancinhas e o vestido rosa das bolinhas brancas. Coruche continua intocada pelas minhas memórias mas, ao longe, ouvem-se as batidas electrónicas de um bar à beira-rio, os restaurantes alargam-se em esplanadas com música ao vivo que primam por interpretações (ainda mais) pobres do "Ai se eu te pego" - sim, há pior que o original; as jovens já se passeiam com Jeffrey Campbell e as donas de casa já lêem a Pipoca e a Mini-saia.
Mas ao lado da miuda com as odiosas e matrafonas botas da moda - or so they think so - desfila um jovem forcado, orgulhoso da promoção máxima. E as donas de casa continuam a esquecer a individualidade, a ignorar os talentos e a dedicar-se a servir um prato quente ao marido que chega a casa; e os trabalhadores continuam a ser contratados, não conhecendo o conceito de recibos verdes; e os dias parecem ter mais horas que na capital; e as estrelas continuam a brilhar mais no céu imaculado que não rivaliza com os incómodos faróis da civilização.












