Quando a vi, pensei que era um afia.
Depois, pensei que tivesse qualquer coisa dentro, por isso abanei-a.
Depois, em tom de explicação, ele rodou a manivela e disse "É uma caixa de música". Ah! É que eu nunca tinha visto nenhuma. Só em filmes. E pensei que fossem austeras e antigas, e não um pedaço de cartão frágil, quase descartável. Mas a música encantou-me, eu soube que tinha de ser minha, e ela ofereceu-ma (claro).
Acho que, só quando aterrei em casa, desempacotei tudo e voltei à crua realidade, é que a ouvi com atenção - com aquele desejo de que os acordes me levassem de volta a Barcelona. Mas não. Não fosse ter aquele "Gaudi" escrito de lado, qual mina de turistas, eu não diria que a tinha trazido da cidade vibrante, mas antes de uma cave antiga, melancólica, e profundamente triste. É isso - triste. A música parte o coração, semeia lágrimas e colhe corações partidos. Conta a história de uma bailarina condenada às voltas repetitivas da caixa de joias daquela senhora de cara enrugada, que se adorna em pérolas e casacos de pele, que risca assertivamente os olhos com lápis negro e esborrata os lábios com o vermelho de outro século. Que se mascara, todos os dias, de um tempo que já foi, para se sentar na poltrona e afogar os sorrisos das memórias no alcool mais bafiento da dispensa vazia.
E, não sei porquê, não consigo deixar de dar à manivela. E a bailarina não pára de dançar.