quarta-feira, 24 de julho de 2013

Roadtrip: dia 1


(foi preciso deixar passar uns bons pares de dias para não tratar este assunto com saudosismos demais)

As Berlengas.
Passei 14 anos a olhá-las de frente até me resolver a fazer delas mais que o horizonte.
Às 11h30 distribuíam-nos sacos de plástico pretos, para o enjoo, como se não fosse mais prático (e, quiçá, menos vergonhoso) inclinarmo-nos borda fora no momento de fazer das tripas coração. Infelizmente, a viagem foi curta e sem eventos, acompanhada pelos murmúrios excitados dos turistas alemães que se fascinavam com o mar alto.
O céu cinzento não abonava ao cenário idílico, mas mesmo naquela luz manhosa o paraíso fazia justiça às lendas. As arribas rasgadas, as natureza em cru, a água gelada. Não vou falar nas gaivotas - quero que esta história tenha um final feliz.
E se ainda há algum pedacinho de terra em que a mão do Homem só se sente devagarinho, é aqui. Aqui é tudo devagarinho. O andar, o falar, o rir. O tempo, a temperatura, a mudança. Só não vem devagarinho a vontade de voltar.















quinta-feira, 27 de junho de 2013

Simetrias


Podia escrever sobre clichés de paraíso, sobre o dourado das ervas secas e do azul (mais para o verde) da água.
Podia escrever isso tudo.
Mas hoje escrevo sobre simetrias. Equilibradas pelo horizonte linear que parece conhecer o segredo do equilíbrio sem o querer partilhar. Divididas no balanço do barco que em vez de se chamar Mourão poderia ser o Pêndulo. Espelhadas em olhos iguais e gritos idênticos, reações semelhantes e gargalhadas partilhadas.
Simetrias entre a paz e o sossego, o descanso e a inércia, o verão e o Alentejo.
Simetrias sobre as margens do Alqueva que foram as quatro paredes em três dias de bocejos, simetrias da água sem vento que se mexia como um lençol de seda, simetrias entre o prazer de estar e a vontade de voltar.
































A Margem Sul é um deserto?


Mário Lino claramente não conhecia o senhor Tony.
Um pequeno império de tudo o que é comida que faz mal às ancas e bem à alma ocupa quase uma rua inteira da Caparica e, no entanto, continua um segredo bem guardado de um sol que os lisboetas só vêm útil para nadar e apanhar um escaldão.
Talvez seja melhor assim.
Talvez seja melhor que os hamburgueres que não chegam a 4 euros mantenham o pão tostado e a carne a saber a carne, o ovo a cavalo e a alface fresca, os sumos naturais feitos de fruta a sério, a apresentação despreocupada que denuncia que a febre gourmet ainda não chegou por aquelas bandas (e ainda bem). Talvez seja melhor que os quatro cantos do mundo não ouçam sobre o molho do bife do Tony's, onde as batatas fritas ficam a nadar, ou que não se percam na comida italiana (aportuguesada, claro está), nem nos fritos bem à moda americana.
Talvez seja melhor que a margem sul continue a parecer um deserto.

  


(a sobremesa comeu-se à parte, mas não era boa o suficiente para merecer menção honrosa)