terça-feira, 29 de outubro de 2013

Le cliché, ou uma carta de amor a Paris



Sou uma miúda que gosta de clichés. Gosto de comédias românticas, de jantares à luz das velas, de bombons. Gosto de música comercial, de vestidos Valentino, de ténis Converse. E gosto de Paris.

Bolas, gosto mesmo de Paris. Dos cafés, das brasseries, das cadeiras de verga viradas para a rua, como se não quiséssemos fazer nada de produtivo da vida enquanto falamos dos outros e bebemos vinho tinto.
Gosto dos croissants, das baguettes, dos macarons e dos bolos demasiado enfeitados. Gosto da palavra "merde", gosto dos cartazes de cinema nacional espalhados a cada esquina, gosto dos contrabandistas que vendem miniaturas da Torre Eiffel.
Gosto dos passeios lisos, da arquitetura fenomenal, das centenas de revistas de Moda meticulosamente dispostas na Colette. Gosto daquela senhora de vestido Armani e flatforms nos pés, parada a fumar à porta do escritório. Gosto das duas amigas com casacos MaxMara que entram para lanchar numa boulangerie que ainda não é cool.

Gosto do cheiro a comida, da história, das montras. Gosto de morar longe, e poder namorá-la à distância. E se gostar de Paris - e de todos esses clichés - faz de mim uma miúda aborrecida, c'est la vie.





































sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Felizes para sempre




Stories We Tell (2012)

Não costumo falar de cinema - ela fá-lo tão melhor que eu - mas isto não é (só) cinema.
Isto é uma história, com capítulos incongruentes feitos de verdades que se achavam universais, mas que depressa se despem do preto e branco para assumir a farda cinzenta da ambiguidade.
Isto é uma história mundana, opressiva e esmagadora.  E esta história é tão grande quanto a do Império Romano, tão importante quanto a Revolução dos Cravos, tão marcante quanto o 11 de setembro. Porque esta história é real. Foi contada, foi chorada, foi amada e foi vivida.
Esta é uma história de amor que respirou para nos fazer acreditar na beleza do ser humano, na sensibilidade da incorreção, na alegria do desejo. Esta é uma história que nasceu para ser contada.
E a verdade é que só somos imortais nas histórias que deixamos para contar.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

1 de setembro de 2013


Setembro chegou com passinhos de lã, entre o calor que se arrastava de agosto e as nuvens de outubro que já espreitam ao virar da esquina.
A neblina desceu sobre o pedaço de céu a que eu gosto de chamar casa e, no meio da areia fina e da água cristalinamente gelada, o mês da ponte entre o suor do verão e o aconchego do inverno tirava-nos a visão a longa - ou média - distância.
O nevoeiro era tão cerrado que podíamos andar todos a jogar à cabra cega entre os chapéus que pareciam todos da mesma cor e as pessoas que se fizeram todas da mesma carne. Quais palas nos olhos, avançava-se às apalpadelas até que o mar nos entrava pelos poros, infiltrando-se nos ossos como a benção de quem está vivo. Adeus, verão.











sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Já não se escrevem cartas de amor


 © The Sartorialist


Se calhar já não se escrevem cartas de amor.
Daquelas com papel timbrado, com palavras sem jeito, com poemas improvisados. Daquelas que levavam selo, que eram esperadas com o nervoso miudinho, que faziam o carteiro sorrir com a letra desajeitada do remetente.
Se calhar já não se roubam carinhos num beco escondido, já não se pede permissão ao pai, já não se abotoa a camisa até ao último botão para conhecer a família.
Se calhar já não se pede à menina para dançar no bailarico - se calhar já nem se sabe dançar música de bailarico -, já não se pisca o olho à distância, já não se leva a sério o "para sempre".

Mas o amor está cá. Tatuado e com WhatsApp, promíscuo e desbocado, desavergonhado e sem fronteiras. Está cá com beijos no meio da rua, com apalpões em público, com sextapes. Está cá com emails, com instagrams, com alterações de estado no Facebook.

Enquanto o amor estiver cá, não precisa de cartas para ser inteiro.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Brinquedos


Podia ter crescido na Lagoa.
Podia ter atravessado os canais e provocar tromboses às gaivotas, podia ter atirado areia e chapinhado na água limpa.
Mas isso fica para ele, agora. Eu sigo-o de câmara na mão.















Riviera


Houvesse Riviera portuguesa, era na Arrábida. Na Praia dos Coelhos ou na Galapinhos, no Portinho ou na Figueirinha, são tantos os paraísos escondidos quanto aqueles que já deram terra à descoberta.
E mesmo quando conhecer aquelas descidas e subidas, aquelas águas baixas e rochas fundas, aqueles desertos tão bem povoados, prometo voltar.
Vezes sem conta.