terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O dicionário Porto-Lisboa


Desta vez, mantendo as imagens do fim de um ano, vou deixar de parte os textos lamechas que já ninguém aguenta e fazer copy-paste do serviço público que alguém, alguma vez, se deu ao trabalho de elaborar. O dicionário Porto-Lisboa. De nada.

sertã - frigideira
loquete - cadeado
repa - franja
pinchar - pular
sapatilhas - ténis
carteira - mala
tacões altos - saltos altos
sostra - sem grande actividade
estrugido - refogado
cruzeta - cabide
guarda-chuva - chapéu de chuva
quarto de banho - casa de banho
picheleiro - canalizador
fino - imperial
espinha - borbulha
pisadura - nódoa negra
foguete - malha nos collants 
testo - tampa da panela

e, em honra do David - e só porque te adoro desmesuradamente:

Pinto da Costa - filho da p*ta.




































segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Saldos, ou, Porque é que eu devia ficar em casa de 28 de dezembro a 28 de fevereiro



(Lisboa, 16 de julho de 2013)

Falta meia hora para o comboio.
Acabei o meu livro, devia comprar um novo.

É isso. Vou só ali à fnac comprar um livro. Só isso.

Plano falhado em 3, 2, 1...

Está bem então. Mas foi só este colete. Eu não tinha nenhum colete de pelo preto pelo joelho. E o desconto era abismal. Vou ter de contar tostões e provavelmente saltar refeições mas eu não tinha mesmo - mesmo - um colete de pelo preto pelo joelho. E todas as mulheres precisam de um colete de pelo preto pelo joelho. Não é?

45 minutos e três lojas depois - nenhuma delas a fnac - começo a hiperventilar no meu ataque de estrogénio (que justifico com uma oscilação hormonal, e não com um ataque de futilidade) e removo-me à força do centro comercial. Fico parada à chuva, em forma de penitência, mas quando começo a pensar que o que eu precisava mesmo era um trench coat para me proteger da chuva que estava a apanhar corro para o comboio, qual diabo que foge da cruz, para que a rede de transportes públicos portugueses seja tudo o que me separa da tentação.

Passo a explicar: não é racional. São cartazes megalómanos, encarnados, com símbolos deste género "%", e é de cultura geral, senso comum, sabedoria popular que a espécie feminina se sente tão atraída pelo símbolo percentual como o Trumps pelo novo single da Lady Gaga. É patológico. É desesperante.

Mas ao menos desespero com um colete de pelo preto pelo joelho.

Droga Humana



Docas, maio de 2013.


Eram viciados em ser, em estar. Na embriaguez sôfrega de quem se apaixona deixou de haver tecnologia, esqueceram-se as redes sociais, apagaram-se as réstias de tempo e espaço que levantam o véu da contemporaneidade.
Ficaram só os vícios. Não o do tabaco, o do vinho, o do gin, o da cerveja ou o da coca. Esses foram-se com as chuvas de um inverno que deixou de ser frio. Ficaram os vícios da carne, do consumo mútuo, do negar de uma existência do exterior. Esqueceram-se dias e noites. Deixaram-se os vícios distraídos e os intencionais. Naqueles anos, os primeiros, queimaram as pontes com o exterior e eliminaram-se um ao outro, sem olhar a consequências, sem saciar os beijos.
E assim ficaram. Os vícios. Em ser, em estar. Em acabar.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Meia-noite em Paris




É a cidade onde a noite é tão grande como o dia. Há sempre cantos do mundo em que uma é maior que a outra, mas é em Paris que as duas se encontram para disputar a beleza da luz.

A natural e a artificial.
O sol e os néons.

E é também a cidade em que, batalha após batalha, nenhuma sai vencedora. Lutam no ringue, lutam na arena, lutam na lama (desavergonhadas!) mas as ruas não se conseguem decidir em qual se preferem vestir. Se gostam mais da breton ou das lantejoulas, do cabelo despenteado ou do batom vermelho.

O dia vangloriou-se da vitória aqui, mas hoje a noite é a rainha (e não vice-versa). Antes, durante e depois da meia-noite. Por ruas encharcadas e folhas empastadas, por boudoirs e negligés, por torres e quartos de hotel. Pelas sombras que convidam aos affairs, aos romances fugazes, ao sexo pelos cantos. Em Paris, um final feliz não tem de esperar pelo "para sempre".