quarta-feira, 2 de julho de 2014

Heróis

Heróis são os que ficam.
De espada ensanguentada por esquartejarem as máscaras que sempre se recusaram a usar.
São os que se enjaularam no amor que os rompe, que se afogaram na doença incurável. 
São os que não conhecem a indiferença, os que não sabem o que é a dormência, os que vivem com a presença letal da ausência.
São os que não têm vazio. Os que já não têm sangue e os que já não têm dia.
Porque é preciso muito menos alma para partir do que para ficar e não morrer.

terça-feira, 1 de julho de 2014

A Marquesa

Moviam-se na coreografia ensaiada pelos anos. Dançavam-na na perfeição.
À mesa o amor não morava nas juras, não morava nos poemas, não morava no ardor.
O amor morava na madeira do jardim e no espelho da água e no açúcar dos gestos.
O amor do Marquês e da Marquesa morava no espaço e no tempo: nunca nos "ondes" e "quandos", nunca nos "aquis" ou nos "agoras".
O amor fez do "sempre" a morada permanente.

de resto.

Tenho-te nas impressões digitais.
De quando me tocaste a memória.
De quando a fizeste tua.
De quando foste tudo o que me resta.
De quando eu não era só um resto.

domingo, 29 de junho de 2014

glaciar.

Apaguei-te a luz.
Sufoquei-me com o calor quando tudo o que queria voltar a sentir eram as mãos geladas que me acalmaram a febre, naquela noite intermitente à porta trancada.
Consegui fechar-te tão facilmente que me alimentei do espanto.

E agora só escrevo para me convencer que não fomos em vão.




sexta-feira, 27 de junho de 2014


Talvez com a esperança vã de conseguir mudar o desenlace que já escrevemos ou com o desejo incontrolável de matar o silêncio perpétuo. 

(quero apunhalar todas as cartas que não me deixam dormir).

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Libertinagem

Que se lixe a liberdade quando as correntes do vício sabem tão bem.
Algemados a cadeiras de carne, sorrimos quando a destruição se torna real, quando as veias se dilatam e o coração explode, quando a dor quase que mata.
Agarrados ao ciclo, com desdém de quem usa lentes cor-de-rosa e máscaras de sorriso. Sem respeito por quem não sabe o que são insónias ou pesadelos ou lágrimas.
Dependentes da saudade porque sabemos que nunca vamos chegar ao futuro.

quarta-feira, 25 de junho de 2014


Menti-me quando gritei que sabes a pouco.
Podemos matar o tempo?

Putos.

Brincávamos com o "Era uma vez".
Na inconsciência abençoada deitávamos tudo ao ar e espalhávamos o que somos - o que fomos - em cima da mesa.
E vivíamos. Como se o amanhã fosse uma miragem, como se o futuro fosse ontem, como se cada átomo se esfumasse se o amor morresse.
O amor (sempre a merda do amor) que nem sequer se dignava a não ser cruel, que jogava com as lágrimas e se tornava no Monopólio que não conseguíamos ganhar.
E o quanto adorávamos. Aquelas partidas de desgosto e faz de conta, aquela falta de noção mascarada de juventude, aquele desespero que gritava


"Por favor, parte-me o coração".

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Caderneta de cromos

Folheei-te a caderneta; vi que era igual à minha.
Quase como se fôssemos putos - com uma ânsia sôfrega de significar uma coleção de vazios.
São páginas e páginas de corações partidos e nenhum deles se quer colar.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

em ácidos.

Quando pensei que tinha saudades de casa fizeste-me beber-te.
- Foste o ácido com que eu mais gostei de me queimar.