domingo, 13 de julho de 2014

Negro


Na urgência das tardes em que as despedidas foram punhais, em que o rio explodia em barreiras intransponíveis, em que a sede dos beijos não conhecia a morte.
Foi a idade da inocência, quando os risos do coração já não usavam máscaras e os raios selvagens do desejo trespassavam as multidões.
Quando os filmes faziam sentido e a felicidade era um abismo quase tão fundo como a saudade de hoje.
Quando eu quis cair - em ti, em nós - sem perceber que, quando acabasse, nunca mais ia ser capaz de ver outra coisa que não negro.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Diz-me "adeus" quando chegares. Não me deixes falar.
Vira-me as costas antes de perceberes o que te quero dizer - o que tenho de te dizer.
Não ouças o discurso que não consigo escrever. Nem me limpes as lágrimas.
Não olhes para trás enquanto me desfaço - nem queiras saber o quanto te preciso.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Internei-te na minha saudade e esperei que as lâminas de cinza se desfizessem antes de me tocar.
Sentei-me em frente ao mar e cheirei-te o silêncio.
Quebrei-o com as palavras que não lês e o aroma da poesia chegou-me - e cegou-me.

Estiveste ali: por um momento estiveste ali, no verão que será sempre nosso.



quarta-feira, 2 de julho de 2014

Heróis

Heróis são os que ficam.
De espada ensanguentada por esquartejarem as máscaras que sempre se recusaram a usar.
São os que se enjaularam no amor que os rompe, que se afogaram na doença incurável. 
São os que não conhecem a indiferença, os que não sabem o que é a dormência, os que vivem com a presença letal da ausência.
São os que não têm vazio. Os que já não têm sangue e os que já não têm dia.
Porque é preciso muito menos alma para partir do que para ficar e não morrer.

terça-feira, 1 de julho de 2014

A Marquesa

Moviam-se na coreografia ensaiada pelos anos. Dançavam-na na perfeição.
À mesa o amor não morava nas juras, não morava nos poemas, não morava no ardor.
O amor morava na madeira do jardim e no espelho da água e no açúcar dos gestos.
O amor do Marquês e da Marquesa morava no espaço e no tempo: nunca nos "ondes" e "quandos", nunca nos "aquis" ou nos "agoras".
O amor fez do "sempre" a morada permanente.

de resto.

Tenho-te nas impressões digitais.
De quando me tocaste a memória.
De quando a fizeste tua.
De quando foste tudo o que me resta.
De quando eu não era só um resto.

domingo, 29 de junho de 2014

glaciar.

Apaguei-te a luz.
Sufoquei-me com o calor quando tudo o que queria voltar a sentir eram as mãos geladas que me acalmaram a febre, naquela noite intermitente à porta trancada.
Consegui fechar-te tão facilmente que me alimentei do espanto.

E agora só escrevo para me convencer que não fomos em vão.




sexta-feira, 27 de junho de 2014


Talvez com a esperança vã de conseguir mudar o desenlace que já escrevemos ou com o desejo incontrolável de matar o silêncio perpétuo. 

(quero apunhalar todas as cartas que não me deixam dormir).

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Libertinagem

Que se lixe a liberdade quando as correntes do vício sabem tão bem.
Algemados a cadeiras de carne, sorrimos quando a destruição se torna real, quando as veias se dilatam e o coração explode, quando a dor quase que mata.
Agarrados ao ciclo, com desdém de quem usa lentes cor-de-rosa e máscaras de sorriso. Sem respeito por quem não sabe o que são insónias ou pesadelos ou lágrimas.
Dependentes da saudade porque sabemos que nunca vamos chegar ao futuro.

quarta-feira, 25 de junho de 2014