sábado, 6 de setembro de 2014

Como hoje

Queria falar-te de dias como hoje. De dias em que o cheiro do silêncio se cortava na água que caía na tua varanda. 
Dias de nada que viam as horas fugir por entre os dedos entrelaçados e que acabavam em suspiros sufocados pelos risos doces.
Queria falar-te de dias como hoje, com as lascas de cinza e o vento aposentado e os corpos cobertos de palavras bonitas. Aquelas que eu amarrei para não voltar a dizer.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

da chuva.

Chegou um rasgo de felicidade quando a chuva começou a sorrir. Um lusco-fusco em que a inconsciência se embaciou com a perda da realidade e as lágrimas já não cantavam como ácido na pele.
Não te sei dizer quanto tempo durou. Nem te sei dizer se as horas se esfumaram ou se os segundos se arrastaram. Não te sei dizer se foram minutos ou uma noite inteira. Tal como não te sei dizer o que preciso de te gritar.
Sei-te dizer que naquela piazza os erros escorreram pelos passeios imaculados. Sei-te dizer que me perdi na alegria insana do esquecimento temporário. Sei-te dizer que me abraçaste os paradoxos como sempre - como d'antes.  Sei-te dizer que são estes segredos infestos que um dia vão acabar comigo.
Não te sei dizer mais nada.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

febril

Estás-me na roupa e estás-me na pele e estás-me nos olhos e estás-me nos lábios. És-me os pesadelos, os desvairos conscientes e os passeios da noção que eu não controlo. Estás-me no peito como uma ferida que não conhece a cura. Estás-me em todas as músicas e todos os filmes e todos os poemas (estás-me na raiz da raiz).

Só quero conhecer um pedaço de mim onde não mores e mudar-me para lá.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

tudo bem.

Está tudo bem.
Ainda que já seja de noite outra vez e nada tenha sido corrompido pelo desejo. Ainda que o sono esteja vazio e os pesadelos cheios. Ainda que a fala se tenha calado e os lençóis se fiquem pelo singular. Ainda que os corpos se queimem pela distância. Ainda que a coragem se fique pela falta.
Está tudo bem.
Tapei-me com o breu e estendi a mão. Ainda estavas lá para a agarrar.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

domingo, 10 de agosto de 2014

fragmentos


Reconheceram-se no sal das lágrimas. Enterraram-se nos lençóis. Consumiram-se nos beijos. Queimaram-se na dependência. Riram-se dos vazios. Viram países - e cidades, e aldeias; e barcos e comboios e carros e aviões. Abraçaram-se à distância. Romperam multidões com os olhos. Deram as mãos às escondidas. Destruíram-se de repente. Amaram-se até ao fim.
Mas nada. Nunca nada aos poucos. Nunca nada pela metade.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

E não adiantam.
Nem os fogos de vista nem as tesões passageiras nem os contos de fada de verão.
Tudo menos que tudo é nada.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O custo.

Mas custou.
Meu, se custou.
Porque obrigou-me a parar de escrever - tirou-me o objeto das letras - e deixou-me num vazio do qual ainda não sei sair.
Roubou-me o sentido (agora vou aprender a ser sem ti) e escondeu-me o norte. 
Foi um delírio, eu sei que foi. Arrancado pelo conforto romanceado da facilidade. Ficar no mesmo sítio sempre foi mais fácil.
Mas estou finalmente a falar no tempo verbal certo e a negar as recaídas e a sair da tortura a que gostava de chamar amor.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

do bairro.



Desciam a calçada ao ritmo das memórias.
As princesas, de contos paralelos e fábulas aleatórias, com os passados sujos a rir por entre os becos imundos.
Do Bairro. Onde tatuaram as paredes com os erros que gostaram de cometer. Onde trocaram o consciente pela oportunidade e regatearam o juízo por uma boa história.
Essas histórias que se trocam agora por debaixo de imperiais, em confidências de adolescentes que vivem por amor e que sabem que não há nada melhor que escrever para quem já viveu as mesmas páginas.