Fugimos num dia de teto cinzento. Fugimos sem horas marcadas nem promessas escritas. Fugimos sem mapa.
Esquecemos a prisão daquela colina e caímos na terra em que os pássaros nos assobiavam a culpa. Peguei-te na vida e fi-la minha. Levei-te às janelas rasgadas com vista para o Tejo, levei-te às praças de muralhas humanas, levei-te aos antros imaculados que ainda me abraçavam em paz.
Desenhei-te as ruas na palma da mão, só para as esqueceres depois. Mostrei-te a cidade que não era minha. Nem ela, nem tu.
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
domingo, 14 de setembro de 2014
melhor
Não sei se é o tempo que se cala ou se nos estamos finalmente a rasgar em estilhaços.
Não sei porque é que o peito não dispara se as memórias não são amargas. Não sei de onde é que chegou a indiferença.
Não sei quando é que os meus olhos se cansaram nem quando é que as minhas mãos deixaram de te querer encontrar.
Não sei como é que as noites deixaram de ser frias, quando é que os dias deixaram de ser feios, quando é que as palavras deixaram de ser tuas.
Nem sei o que fazer se isto me acabar.
sábado, 6 de setembro de 2014
Como hoje
Queria falar-te de dias como hoje. De dias em que o cheiro do silêncio se cortava na água que caía na tua varanda.
Dias de nada que viam as horas fugir por entre os dedos entrelaçados e que acabavam em suspiros sufocados pelos risos doces.
Queria falar-te de dias como hoje, com as lascas de cinza e o vento aposentado e os corpos cobertos de palavras bonitas. Aquelas que eu amarrei para não voltar a dizer.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
da chuva.
Chegou um rasgo de felicidade quando a chuva começou a sorrir. Um lusco-fusco em que a inconsciência se embaciou com a perda da realidade e as lágrimas já não cantavam como ácido na pele.
Não te sei dizer quanto tempo durou. Nem te sei dizer se as horas se esfumaram ou se os segundos se arrastaram. Não te sei dizer se foram minutos ou uma noite inteira. Tal como não te sei dizer o que preciso de te gritar.
Sei-te dizer que naquela piazza os erros escorreram pelos passeios imaculados. Sei-te dizer que me perdi na alegria insana do esquecimento temporário. Sei-te dizer que me abraçaste os paradoxos como sempre - como d'antes. Sei-te dizer que são estes segredos infestos que um dia vão acabar comigo.
Não te sei dizer mais nada.
Não te sei dizer quanto tempo durou. Nem te sei dizer se as horas se esfumaram ou se os segundos se arrastaram. Não te sei dizer se foram minutos ou uma noite inteira. Tal como não te sei dizer o que preciso de te gritar.
Sei-te dizer que naquela piazza os erros escorreram pelos passeios imaculados. Sei-te dizer que me perdi na alegria insana do esquecimento temporário. Sei-te dizer que me abraçaste os paradoxos como sempre - como d'antes. Sei-te dizer que são estes segredos infestos que um dia vão acabar comigo.
Não te sei dizer mais nada.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
febril
Estás-me na roupa e estás-me na pele e estás-me nos olhos e estás-me nos lábios. És-me os pesadelos, os desvairos conscientes e os passeios da noção que eu não controlo. Estás-me no peito como uma ferida que não conhece a cura. Estás-me em todas as músicas e todos os filmes e todos os poemas (estás-me na raiz da raiz).
Só quero conhecer um pedaço de mim onde não mores e mudar-me para lá.
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
tudo bem.
Está tudo bem.
Ainda que já seja de noite outra vez e nada tenha sido corrompido pelo desejo. Ainda que o sono esteja vazio e os pesadelos cheios. Ainda que a fala se tenha calado e os lençóis se fiquem pelo singular. Ainda que os corpos se queimem pela distância. Ainda que a coragem se fique pela falta.
Está tudo bem.
Ainda que já seja de noite outra vez e nada tenha sido corrompido pelo desejo. Ainda que o sono esteja vazio e os pesadelos cheios. Ainda que a fala se tenha calado e os lençóis se fiquem pelo singular. Ainda que os corpos se queimem pela distância. Ainda que a coragem se fique pela falta.
Está tudo bem.
domingo, 10 de agosto de 2014
fragmentos
Reconheceram-se no sal das lágrimas. Enterraram-se nos lençóis. Consumiram-se nos beijos. Queimaram-se na dependência. Riram-se dos vazios. Viram países - e cidades, e aldeias; e barcos e comboios e carros e aviões. Abraçaram-se à distância. Romperam multidões com os olhos. Deram as mãos às escondidas. Destruíram-se de repente. Amaram-se até ao fim.
Mas nada. Nunca nada aos poucos. Nunca nada pela metade.
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