segunda-feira, 3 de novembro de 2014

d'outono

É das coisas bonitas de outono. Bonitas e leves e frias. De lá longe, do que não é amor e entra sem pedir. De uma terra cheia de almas vazias. Mas é do outono - só pode ser do outono - de que se riem os sonhos e se semeia a insanidade.
Foge-se ao vulgo. E sentem-se as trovoadas no estômago, as tempestades no rosto e as nuvens no peito. Cheira a novo - respira-se de novo - e enterram-se os machados. Obrigada por me reacenderes o fôlego, por me distraíres da luz apagada, por me ocupares a noite. És uma coisa bonita de outono.

sábado, 1 de novembro de 2014

Quando o tumulto pára, és sem chegar. Falas sem ruído. Existes sem nome. Quem me dera ser como eles, os leves de espírito e pobres de dor, os de coração parado e os que dão a mão ao nada. Quem me dera que o que me enche a alma morresse, também. Quem me dera que os becos tivessem saída e que os unicórnios fossem reais e que as palavras fossem ditas. Mas há coisas que não (me) acontecem. Tu não (me) aconteces.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Ler-te nas páginas todas e escrever-te até a insónia me acordar. Estou cansada das noites brancas e desta apneia que não me deixa ver nada que não sejas tu. Já chega. Por favor, já chega.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

As saudades são uma coisa feia. Não respiram pelo grande, pelo nobre, pelo vasto. Prendem-se ao pequenino e ao irrisório num jogo fútil em que o poder está do lado de quem não gosta mais. São picuinhas e são sujas. E subsistem desgraçadamente nos acessórios. Como a forma de pegar na garrafa de cerveja. Ou a maneira estúpida de fumar. Ou o jeito de despentear o cabelo para não estar demasiado arranjado. Ou a gargalhada doce. Ou a cara emaranhada de criança. Ou os olhos inchados das lágrimas que doíam mais que as minhas. Ou os caminhos perdidos. Ou o cheiro das mãos. Ou o conceito de casa. Ou as músicas que deixaram de ter seis minutos e quarenta e três segundos para durarem uma vida inteira.


domingo, 5 de outubro de 2014


(Paris, 1 de outubro)

Deixei a vida no quarto. Trouxe o vinho e os cigarros e o papel e a caneta. Deixei-te lá também porque hoje não quero pesadelos.
O chão está encharcado e a alma está cheia. A rua está morta e já não sei se é ela que se ri para mim sou se as palavras escritas fazem eco.
Lá vêm as insónias, com os tanques de guerra carregados. Lá vem a noite branca da chuva demitida, da loucura aplaudida, da cidade que me abraça o coração com promessas de brandura temporária. Não faz sentido. E vou-me arrepender disto amanhã.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Lembro-me de querer ter saudades. E lembro-me de, quando me esqueci que trabalhavam melhor que a faca e o sangue e o fogo, encolher os ombros e rir-me, como se fossem uma desculpa frívola para olhos fracos.
Lembro-me que, quando invertemos os espaços e me deste a conhecer o vazio, quis tapá-lo com os álbuns de fotografias onde - achava eu - me tinhas encerrado a alma. Enterrei-me em lágrimas de fumo e em mãos que só queriam ser tocadas pela pele a ferver. Em lábios que não se cansam e em peitos que não sentem nada a não ser a falta. A falta como uma verdade perpétua que não é quebrada pelos beijos nem pelos lençóis nem pelas palavras. A falta que - ao contrário das saudades - não é o princípio de nada. Nem o fim de tudo.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

fugas

Fugimos num dia de teto cinzento. Fugimos sem horas marcadas nem promessas escritas. Fugimos sem mapa.
Esquecemos a prisão daquela colina e caímos na terra em que os pássaros nos assobiavam a culpa. Peguei-te na vida e fi-la minha. Levei-te às janelas rasgadas com vista para o Tejo, levei-te às praças de muralhas humanas, levei-te aos antros imaculados que ainda me abraçavam em paz.
Desenhei-te as ruas na palma da mão, só para as esqueceres depois. Mostrei-te a cidade que não era minha. Nem ela, nem tu.

domingo, 14 de setembro de 2014

melhor


Não sei se é o tempo que se cala ou se nos estamos finalmente a rasgar em estilhaços.
Não sei porque é que o peito não dispara se as memórias não são amargas. Não sei de onde é que chegou a indiferença. 
Não sei quando é que os meus olhos se cansaram nem quando é que as minhas mãos deixaram de te querer encontrar.
Não sei como é que as noites deixaram de ser frias, quando é que os dias deixaram de ser feios, quando é que as palavras deixaram de ser tuas.
Nem sei o que fazer se isto me acabar.

sábado, 6 de setembro de 2014

Como hoje

Queria falar-te de dias como hoje. De dias em que o cheiro do silêncio se cortava na água que caía na tua varanda. 
Dias de nada que viam as horas fugir por entre os dedos entrelaçados e que acabavam em suspiros sufocados pelos risos doces.
Queria falar-te de dias como hoje, com as lascas de cinza e o vento aposentado e os corpos cobertos de palavras bonitas. Aquelas que eu amarrei para não voltar a dizer.