Estavas febril, com todas as certezas da impossibilidade que arrastavas sozinha.
Foi depois da maior noite do ano, quando os dias começaram a encerrar mais tarde para nos dizer que tínhamos todo o tempo do mundo.
Não os ouvimos e tínhamos razão. Não dormimos naquelas horas à porta fechada onde desenterrámos o machado e começámos a luta de uma vida.
Era frio mas estava quente. Havia luz mas não víamos nada - só aquele precipício para onde não hesitámos correr de mãos dadas sem paraquedas nem precaução.
Pintaste-me a ausência e falaste-me na saudade sem saberes que era só com ela que eu ia ficar.
Assinámos contrato sem termo com o amor feroz que nunca foi gritado em vão. Deixaram de existir ânimos leves, tal como deixaram de existir palavras.
Nunca me tinham faltado as palavras antes de ti. Carregaste-as, como me carregaste a alma. Ao menos as palavras eu consegui recuperar.
domingo, 21 de dezembro de 2014
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Era janeiro. Disse-lhe que não, com as amarras da cobardia ao pescoço.
Disse-lhe que não tinha força, que era demais. Procurou na gaveta os argumentos que sabia não ter e despediu-se de cabeça baixa, pesada pela vergonha que carrega a falta de coragem.
Ela levantou-se e foi-se embora. Não gritou nem morreu - foi-se só embora com a dor do silêncio.
Os relógios reformaram-se para desfibrilhar o amor. Saiu dali quando a noite caía e quando ela já ia longe e correu com o rio dado à mão direita.
Correu até os pulmões colapsarem, até lhe conseguir agarrar o braço, até lhe sentir a boca, até lhe prometer a eternidade.
Para quê?
Disse-lhe que não tinha força, que era demais. Procurou na gaveta os argumentos que sabia não ter e despediu-se de cabeça baixa, pesada pela vergonha que carrega a falta de coragem.
Ela levantou-se e foi-se embora. Não gritou nem morreu - foi-se só embora com a dor do silêncio.
Os relógios reformaram-se para desfibrilhar o amor. Saiu dali quando a noite caía e quando ela já ia longe e correu com o rio dado à mão direita.
Correu até os pulmões colapsarem, até lhe conseguir agarrar o braço, até lhe sentir a boca, até lhe prometer a eternidade.
Para quê?
Estava frio e as páginas rasgavam as mãos.
Era linda a Lisboa que lavava em lágrimas as memórias de cartão.
Falavam das janelas para as ruas vazias, para as pedras molhadas, sobre os tribunais do amor e os carrascos da esperança.
Cruzavam os braços junto ao peito. Aconchegavam o casaco. Riam-se porque o gelo lhes dá força - elas, as memórias de cartão que não sabem o que é justiça e sufocam o que é viver.
Era linda a Lisboa que lavava em lágrimas as memórias de cartão.
Falavam das janelas para as ruas vazias, para as pedras molhadas, sobre os tribunais do amor e os carrascos da esperança.
Cruzavam os braços junto ao peito. Aconchegavam o casaco. Riam-se porque o gelo lhes dá força - elas, as memórias de cartão que não sabem o que é justiça e sufocam o que é viver.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
Acordei à beira do abismo, sem noção do impossível. Tinha o sangue nos ouvidos, a agonia nos pulsos, a sede nos olhos. Quis saltar, sem sequer saber se estarias lá em baixo, se darias um passo atrás quando me visses cair.
Foi assim que percebi que tinha de desistir, de abrir mão, de fechar perpetuamente o peito em ferida.
Foi assim que percebi que tinha de desistir, de abrir mão, de fechar perpetuamente o peito em ferida.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Luzes apagadas. Coração na boca. Mãos no peito. Relógios fechados. Horas vazias. As noites escorriam mais depressa que nós, que olhávamos para o teto com a alma nas histórias maiores que o tempo. Com todos os contos que nos amaram naquela cama de criança. Saudades demais. Vidas inteiras. Segundos pequenos. Luzes apagadas.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Estavas ali, naquele pedaço de tempo perdido nos espaços - não, contigo nunca o contrário. És os tempos e as máquinas das noites da memória fria.
És sempre os minutos de ontem, de há anos. És sempre no pretérito. És sempre no imperfeito das coisas e das falas. És sempre nas palavras repetidas - sei sempre o que te dizer, a todas as horas e a todos os dias que não são meus.
Deixa-me escrever quando não ouves e falar quando fechas os olhos.
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Passam todos por nós, os anos. Passam rudes, passam feios, passam com armas e com bagagens. Passam com muros, passam dormentes, passam grandes e fortes e cheios.
Passam de olhos fechados. Passam sem ver, do alto da sua arrogância, que nós não passamos por eles.
Estávamos num autocarro de mão dada. Estávamos num carro à minha porta. Estávamos num concerto aos encontrões. Estávamos longe e estávamos perto. Estávamos nas letras e no peito. Estávamos sempre. Estávamos na vida toda, meu amor. Estávamos na vida toda.
Parabéns, B.
Passam de olhos fechados. Passam sem ver, do alto da sua arrogância, que nós não passamos por eles.
Estávamos num autocarro de mão dada. Estávamos num carro à minha porta. Estávamos num concerto aos encontrões. Estávamos longe e estávamos perto. Estávamos nas letras e no peito. Estávamos sempre. Estávamos na vida toda, meu amor. Estávamos na vida toda.
Parabéns, B.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Estou assim desde que o Atlântico nasceu, desde que me lembro. De olhos fechados e cheios de pesadelos onde ainda tenho os ritmos da tua voz e o cheiro da tua pele, onde ainda me deito nos teus cabelos e fecho a mão com o coração lá dentro. Os pesadelos de hoje que são a realidade de ontem.
Espero que a vida me deixe. Que as mãos não me sintam. Que o corpo não me doa. Até lá, peço-te só que me deixes quebrar as promessas porque as palavras que para ti não são nada são tudo o que me faz acordar.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Desliga-me o cronómetro deste tempo que não passa. É absurdo que os beijos morram na praia e as vozes se afoguem neste rio de dias que apagámos do calendário.
E esta justiça, também. Que não pede tradução. Só pede licença e escusa-se de entrar. Chega quando quer, desaparece sem quando nem onde. São negócios da China, estes onde nos enterramos até ao pescoço.
Que se foda, está tudo bem.
Nós aqui. No meio do nada. E eu aqui, sem cadernos para escrever.
E esta justiça, também. Que não pede tradução. Só pede licença e escusa-se de entrar. Chega quando quer, desaparece sem quando nem onde. São negócios da China, estes onde nos enterramos até ao pescoço.
Que se foda, está tudo bem.
Nós aqui. No meio do nada. E eu aqui, sem cadernos para escrever.
Subscrever:
Mensagens (Atom)