terça-feira, 20 de agosto de 2019

já não tenho idade para nada, muito menos para isto, fazes a idade escorrer-me pelos cabelos há quase quinze anos. há quase quinze anos que me tiraste cada grão de areia desta praia e cada grama de sal deste mar e cada aresta morna destas rochas. tiraste ou atiraste, nem sei, eram nossos, ainda são? e sempre que aqui venho penso que invocas os deuses em mim. nem sequer sei o que isto é mas também sei que é a mais pura das verdades, não chegando ainda a ser amor, não agora, mas já foi ainda é? continuas a ser a única constante no fundo do meu estômago, o único que fez dele o que quis, com tantas voltas que lhe deu, sem querer saber se eu tinhq outro em casa, eras assim um arrastão de vento quente, ainda és? ainda és porque aqui tudo cheira a ti, tudo sabe a ti, tudo soa aos dedos das tuas mãos nas minhas, às escondidas, às revelias da vida. quero-te na minha cama, ainda queres? hoje acordei e amarrei os braços atrás das costas porque foi um esforço titânico não te enviar, depois de cinco anos, olá, onde é que estás? 

quarta-feira, 26 de junho de 2019


Imagino que é de noite e que estamos deitados no chão da cidade que estremece em sussurros.
Imagino a ausência de palavras que nos fica pela saliva, fica a dançar-nos na beira dos lábios quentes.
Imagino os nossos olhos petrificados pelas estrelas, o ar congelado em cima de nós, sentado em cima do nosso peito. Singular.
Imagino que me estás a escrever dentro de ti. Estás a voar nos meus cabelos espalhados pela calçada, no cheiro que trago ao pescoço, na minha boca tão pronta que nem a pintei de sangue, nos estilhaços que sou e que tento colar com poemas. Estás a ver-me fumar de olhos fechados e a saber que só paro de me atirar quando o meu corpo chegar às rochas, quando estiver tão quebrado como eu. Estás a ver-me cair e cais comigo, caímos juntos, meu bem, caímos sempre juntos.
Imagino isto porque imagino que ao teu lado, a tocar-te ao de leve na pele, ao de leve, ao de leve, eu faço o mesmo, imagino. Escrevo-te dentro de mim sempre que te vejo, sempre que caio para dentro dos teus olhos e caio mais depressa e tu cais comigo, caímos juntos, meu bem, caímos sempre juntos.

terça-feira, 25 de junho de 2019

queria escrever sobre a ternura da média luz mas só sei dizer

há noites que são de seda.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

hoje quis escrever, mas não deu. quis falar, mas também não deu - nunca dá, aqui, agora. li pedaços do Belo e senti-me pequenina. sentei-me lá fora, o chão gelou e o céu parou, sufocante e negativo, com os egoístas pontos de luz que só brilham longe.
tenho o coração cheio de penas. se calhar não tenho coração. mas tenho dedos e esses souberam de cor um maço de cigarros fumados ao tutano. se calhar já não quero estar aqui.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

tudo o que é especialmente bonito agora não era especialmente nada antes. a marca de batom na chávena de chá. os joelhos moídos. a manta a desfazer-se.
é isso, antes era tudo especialmente nada. os nadas eram isso mesmo porque havia um maior, havia uma coisa e um centro - se não fosse centro era moldura, mas que se foda o que era porque o que importa é que estava lá e o verbo "existir" não se conjugava no passado.
quando se muda o tempo - acrescenta-se-lhe uma ausência ou três ou todas - têm de se mudar as vontades. agora olha-se para os nadas que são os mais bonitos de todos. a marca de batom na chávena de chá. os joelhos moídos. a manta a desfazer-se. imortaliza-se, imprime-se nos neurónios, revela-se no coração.
quando não se tem um tudo, o nada é mais bonito. perdoem-me a repetição, mas não há sinónimos para verdades absolutas.
estar sozinha é uma sem-vergonhice de detalhes. vê-se a vida como um filme porque há que manter um romantismo ou dois. o fumo sai da caneca em câmara lenta e o ato de estar deitada na cama durante mais de 24 horas é uma espécie de timelapse demoníaco cuja banda sonora é uma filha da puta de um sentimento de culpa.
nem tudo é trágico, claro. há uma certa leveza em não ter de cortar as unhas dos pés quando atingem um tamanho indecente. ou em beber uma garrafa de douro em menos tempo que o socialmente aceitável. ou em não ter testemunhas quando se ignora deliberadamente uma chamada.

não ter ninguém para amar é um jorro de palavras de cinza. coisa nenhuma faz demasiado sentido e andar às aranhas é a única forma de desfilar. escrever é a única maneira de respirar. tudo o resto é tempo. marca de batom na chávena de chá. joelhos moídos. manta a desfazer-se.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

olha, olá. vi-te agora a bater os bifes lá ao fundo, na cozinha, como se o destino da humanidade dependesse da carne macia e percebi que te quero em todas as vidas.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

empresta-me esse livro que está aí de ombro de fora da estante, intocado pelo óleo das mãos. empresta-me agora que acabei de fechar o objeto quase e tenho ganas de letras e de génios que descem ao papel de quando em vez.
empresta-me lá. um dia devolvo-te a capa mole e a vontade dura.

domingo, 18 de setembro de 2016

chamei-lhe o meu restaurante. está cheio de turistas. não é nada de especial. massa feita no ponto. pouco mais.
aborrece-me passar horas em museus para ser testemunha de génios mais inteligentes que eu.
também não quero fingir que sou daqui. quero fingir que sou de lá e moro aqui. 
do you need something milady? não, só de tempo. e de parágrafos. gostava de escrever poesia mas precisava de mais parágrafos ou de uma vida com uma métrica decente.
fui sempre ali. tem toalhas aos quadrados, flores de plástico e velas elétricas. mas não tem vertigens nem gorjetas. não tem crianças, também. passo o tempo a ler. a ver pessoas tropeçarem na calçada e na vida. a fingir que gosto de estar sozinha, que estou numa viagem de autodescoberta quando tudo o que eu queria era saber a história do empregado indiano que arrasta as trombas no chão mal encerado.
saio e sento-me quase no mesmo ponto dos degraus do Duomo a escrever livros na cabeça. esqueço-me deles todos quando me lembro que não estás aqui. merda pra ti. queria que estivesses aqui. queria que estivesses em todo o lado porque o dia cheira sempre melhor quando estás à distância de dedos entrelaçados. a culpa disto é tua, o amor é o meu incenerador de palavras. acendo um cigarro com o outro. se calhar um dia alguém vai pagar bilhete para atirar moedas no ponto exato onde eu os apago. se calhar não.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

acordo a tremer, agora. não é como antes, em que o sono não vinha mas as insónias eram poéticas naquela forma feia de auto-destruição. isqueiro aceso (fósforos, quando havia a necessidade de ser mais dramática) e pulmões cheios de merda. sentava-me à beira daquele fosso de janela com as mãos de céu.
mas não é como antes, agora. é pior, mesmo quando eu achava que não me podia sufocar mais no sarro da noite. estava a salvo, agora. adormecia na tua pele e não sonhava cor-de-rosa mas também não sonhava nada. era o infinito, mas não é como antes, agora. afinal a tua pele queima e eu já não quero voltar. hoje durmo sozinha.